A Orelha

DO CONTRÁRIO NÃO É CASA

(por Eduardo Jorge)

one-day-I-know-there’ll-be-a-place-for-us.
P.J. Harvey

Existe uma casa que se recusa a ser familiar. Seus ângulos e fachadas enganam os que com eles se encantam, seja por sua beleza, seja por sua história. Em uma das investidas chamaram-na de um museu pessoal e incompreensível. Sim, existe uma casa que nunca será nossa. E talvez seja justo aquela que acreditamos possuir. Com alguma habilidade ela pode ser enviada pouco a pouco, via postal. Não há heroísmo em habitá-la, mas com um pouco de paciência será possível criar a ambiência de um verso. E ainda por cima dar tônus a personagens até então inexistentes. Do outro lado, uma voz à margem da página diz que a literatura não quer salvar ninguém. Nem a si mesma. No meio de tudo, ela é irresponsável. Se a partir desse momento, ouve-se uma música, é porque há quem confie que a melodia contida nas coisas traga algo perdido no decorrer dos anos. Traduções, ensaios, partituras, enfim, ficções dão aos solitários o tom de uma comunidade emocionante. Alguns exercícios de ficção nos levam a morar em uma casa a qual não temos propriedade. Simplesmente não temos ideia de como fomos parar ali. Ilegalmente, vamos ocupando-a. Migrando de história em história, cruzando fronteiras por demais íntimas, ininteligíveis. No entanto, há alguma alegria que nos faz buscar personagens para habitar nossos modos de existência, mesmo sabendo que a casa pode cair. A casa, dita de outro modo, é um linha tênue, muito fina e bem esticada. Se há momentos em que nos confundimos com os personagens, isso nos iguala na condição de funâmbulo. É preciso seguir a linha. Correr o risco. O fato é que as casas continuam suspensas, flutuam tomando de empréstimo o nome de Odisseu, para praticamente terminar em uma ilha. Há quem coloque como meta habitar uma ilha dentro de uma ilha, dentro de outra e assim sucessivamente até chegar em algo que caiba na palma da mão. Ou na ponta de um dedo. Enquanto isso, os nomes seguem por suas naus. Logo um encontrará um outro. Mas essa história não pertence mais a casas ou a embarcações: trata-se da história da água.

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